Vida de Escritora (não é bem o que você pensa)
Ser escritora, hoje, não tem só a ver com escrever.
Tem a ver com sobreviver.
Escrever é só o primeiro passo — e, ironicamente, o mais fácil.
Depois disso, começa o estágio avançado de malabarismo literário:
Você escreve.
Aí procura um santo Beta Reader.
Acolhe (ou questiona) as sugestões.
Reescreve.
Edita.
Reedita.
Diagrama.
Revisa.
Revisa de novo, porque agora você já duvida até do próprio nome.
Até que, exausta, se autopublica — porque editoras raramente arriscam quem não é famoso antes mesmo de escrever.
Mas aí vem o ato II: virar marketing.
Escritora, que já virou editora, diagramadora e revisora, precisa agora ser influencer, gestora de tráfego, especialista em Instagram Reels, TikTok, SEO, Amazon Ads… e, claro, fazer stories diários para provar que está “ativa”.
Coloque uma #escritora em qualquer lugar e imediatamente surgem ofertas de reviews pagas, divulgações milagrosas, colaborações suspeitas.
É um pequeno ecossistema — caótico, inflado, às vezes desesperado.
Ser escritora hoje é um ato de rebeldia.
E também de profunda solidão.
Porque escrever, a gente escreve.
Mas garantir leitores?
Aí já é outro campeonato.
Ler virou luxo.
Tempo virou produto.
E ninguém passa mais de 15 segundos num texto sem procurar o botão de pular.
Escrever é para quem tem coragem de se expor mesmo quando não tem certeza se alguém vai ficar para ouvir.
Escrever é fácil; difícil é fazer o trabalho de todos os outros.
Escrever poderia ser a minha vida — se eu não precisasse dividir meu tempo com todas as funções que não são de uma escritora.
Escrever poderia ser a minha vida se mais gente gostasse, realmente, de ler.
Escritor pode acumular funções, sim.
Mas dói jogar um texto no mundo e vê-lo morrer na solidão.
Mesmo assim, seguimos.
Porque, apesar de tudo, escrever ainda é o único lugar onde eu me sinto inteira.