Sozinha vs. Solitária – E Por Que Não São a Mesma Coisa
Há dias em que minha casa fica em silêncio.
Sem passos.
Sem vozes.
Sem movimento – exceto a luz mudando de lugar na parede.
Nesses dias, eu estou sozinha –
e tudo bem.
Porque estar sozinha é um estado do corpo.
Sentir-se solitária é um estado do coração.
Aprendi isso devagar.
Com o tempo.
Com quartos que ecoavam.
Com amizades que se afastaram.
Com manhãs em que a presença parecia mais ausência do que companhia.
Sozinha é quando o cômodo está vazio.
Solitária é quando o cômodo está cheio –
mas ninguém te vê.
Sozinha é neutro.
Solitária é carregado.
Sozinha é físico.
Solitária é emocional.
Sozinha é escolher espaço.
Solitária é ser deixada para trás.
Posso estar sozinha cozinhando, caminhando, escrevendo, dobrando roupa.
Posso estar sozinha num café, numa livraria, dentro dos meus pensamentos – e me sentir inteira, livre, em paz.
Mas solitária?
Solitária é quando amigos antigos param de dizer “oi, como você está?”.
Quando as pessoas ao redor falam muito – mas não com você.
Quando alguém está ao seu lado, mas não está com você.
Solitária é abandono em câmera lenta.
Solitária é desconexão – não solitude.
Filósofos tentam explicar essa diferença há séculos.
Aristóteles acreditava que os seres humanos são “animais sociais” –
não porque precisamos de companhia constante,
mas porque precisamos de conexão significativa.
Não de corpos.
Não de barulho.
Conexão.
Hannah Arendt escreveu que a solidão surge quando perdemos a sensação de que nossa experiência é compartilhada –
quando falamos e ninguém responde,
quando existimos e ninguém testemunha.
Rollo May, psicólogo existencial, disse:
“A solidão não é a ausência de pessoas.
É a ausência de intimidade.”
Acho que ele estava certo.
Estar sozinha é a ausência de corpos.
Sentir-se solitária é a ausência de intimidade.
Estar sozinha é uma escolha.
Sentir-se solitária parece uma sentença.
Escolho estar sozinha quando escrevo, leio, descanso, cozinho, simplesmente existo.
Não tenho medo disso.
Não guardo ressentimento.
A solitude é liberdade, autonomia, espaço para respirar.
A solidão, por outro lado, é quando alguém te esquece.
Não de propósito –
mas aos poucos.
Em silêncio.
Quase sem perceber.
Uma mensagem sem resposta.
Um “como você está?” que nunca vem.
Um aniversário esquecido.
Uma amizade que se apaga sem a delicadeza de um adeus.
Isso é solidão:
não o vazio –
mas o apagamento.
A solitude é uma amiga.
A solidão é uma fratura.
A solitude segura sua mão.
A solidão solta.
A solitude te expande.
A solidão te esvazia.
A solitude te devolve a você mesma.
A solidão te rouba do mundo.
E quanto mais velha fico, mais clara essa diferença se torna.
As pessoas costumam confundir as duas –
especialmente aquelas que têm medo de ficar sozinhas,
que se agarram ao barulho para não ouvir os próprios pensamentos.
Mas a solitude não é uma ameaça.
A solitude não é o oposto do amor.
A solitude é um quarto onde a alma pode respirar.
Como disse Søren Kierkegaard:
“A maior coisa do mundo é saber pertencer a si mesmo.”
Então, o que eu sei hoje é isto:
Eu não me sinto solitária quando estou sozinha.
Nem por um instante.
Eu me sinto solitária quando a conexão desaparece.
Quando pessoas que amei deixam de se aproximar.
Quando a presença vira memória – em vez de escolha.
Mas estar sozinha?
Sozinha é paz.
Sozinha é clareza.
Sozinha é o momento em que volto para mim sem interrupção.
Estar sozinha não é castigo.
Sentir-se solitária é.
E essa diferença –
essa diferença delicada e poderosa –
faz toda a diferença no mundo.