Sobre Escolhas (e o Conforto de Julgar as dos Outros)
Você já percebeu
como é fácil falar sobre as escolhas dos outros?
A palavra sai limpa, segura, quase elegante:
“É consequência das escolhas que fez.”
Como se toda decisão fosse tomada
com tempo, clareza, maturidade e opções sobre a mesa.
Como se ninguém tivesse escolhido com medo,
com fome,
com amor demais,
com pouco repertório,
com a infância ainda aberta,
ou com o desespero respirando no cangote.
Julgar escolhas alheias costuma ser confortável.
A gente olha de fora.
De longe.
Com a vantagem de já saber o resultado.
Mas escolhas não nascem no vácuo.
Elas nascem em contextos.
Em histórias interrompidas.
Em improvisos emocionais.
Em tentativas meio tortas de sobreviver.
Jean-Paul Sartre dizia que somos responsáveis por nossas escolhas –
e é verdade.
Escolher é um ato de liberdade.
Mas ele falava de uma liberdade situada,
não de um jogo limpo, com as mesmas cartas para todos.
Responsabilidade não é sinônimo de crueldade.
Nem liberdade exclui compaixão.
Hannah Arendt lembrava que julgar exige pensamento –
e pensar exige pausa.
Exige sair do automático.
Exige considerar o outro não como um erro,
mas como alguém que age dentro de um mundo complexo, imperfeito e, muitas vezes, hostil.
Nem toda escolha é heroica.
Algumas são apenas possíveis.
Outras são as únicas que cabem naquele momento da vida.
E há escolhas feitas com ferramentas quebradas.
Com amor mal aprendido.
Com referências que falharam.
Com dores que ninguém viu.
Simone de Beauvoir escreveu que não se nasce pronto –
torna-se.
E tornar-se envolve errar, tentar, cair, ajustar a rota.
Envolve escolhas que hoje parecem estranhas,
mas que ontem foram sobrevivência.
Talvez o problema não seja falar de escolhas.
Talvez seja falar delas sem empatia.
Sem curiosidade.
Sem a mínima disposição de perguntar “o que te trouxe até aqui?”
Porque quando a gente reduz uma vida inteira
a uma frase julgadora,
o que falta não é inteligência.
É humanidade.
No fim das contas,
todos nós fazemos escolhas.
Algumas conscientes.
Outras apressadas.
Outras ainda tentando salvar alguma coisa que já estava se perdendo.
A pergunta talvez não seja
“por que você escolheu isso?”
Mas sim:
se eu tivesse vivido exatamente a sua vida,
com as mesmas faltas, os mesmos afetos e os mesmos limites…
eu teria escolhido diferente?
Essa pergunta muda tudo.