Se Eu Fosse Uma Casa

Meu quarto sempre pareceu vivo para mim.
Às vezes, era um espelho.
Às vezes, um sussurro do que eu deveria ser – ou do que ainda não tinha me tornado.
Em certos dias, exigente demais.
Em outros, apenas um abraço de conforto dobrado em cobertores.

Meu quarto me tinha.
E eu tinha meu quarto.

Era bagunçado, depois reluzente.
Guardava música e silêncio.
O piscar da TV e passeios de bicicleta.
Poemas e pausas.

Sempre que eu fechava a porta, não estava fugindo.
Estava entrando –
num mundo onde eu podia ser qualquer versão de mim que precisasse naquele dia.

Porque um quarto, para mim, sempre significou espaço.
Espaço para respirar.
Para me tornar.
Para desfazer.
Para não ser perfeita.

E nesse espaço, eu ouvia coisas.

Não apenas sons – mas sentidos.
Rimas chegando antes mesmo de eu chamá-las.
O ar dizendo coisas que não devia dizer.
O silêncio com sua própria linguagem.

Sim, eu ouvia vozes –
nem sempre explicáveis.
Nem sempre seguras de confessar.

Risos na madeira.
Segredos no chão.

Na maioria dos dias, eu ouvia coisas boas.
Mas às vezes, o escuro rangia mais alto.

Então eu inventava.

Sempre foi assim.
Na minha imaginação, “e se?” não existia.
Se eu pensava – já era real.

Um mundo que acolhia possibilidades sem pedir permissão.

Minha criatividade era – e ainda é –
meu jeito de ouvir o que não é dito
e transformar isso em algo que só eu podia compreender.

Talvez por isso eu acredite que casas são como pessoas.

Elas carregam amor, barulho, trauma.
Absorvem o que dizemos e o que calamos.
Elas nos aprendem.

Uma casa pode guardar um segredo por décadas.
Pode cheirar a medo – ou a canela.
Pode chorar sem som – ou ecoar alegria até as janelas tremerem.

Como nós, ela se enfeita.
Com tinta, com móveis, com luzes bonitas.
Mas a verdade sempre mora por dentro.

Se eu fosse uma casa, não seria muito normal.

Talvez um telhado engraçado.
Talvez uma casa sem cantos – só curvas.
Eu me destacaria um pouco dos vizinhos.
Não para chamar atenção – apenas porque sim.

Meus cômodos mudariam de forma de vez em quando.
Minhas janelas seriam grandes e abertas –
para deixar a clareza do mundo entrar
e guiar os pensamentos embolados lá dentro.

A escada?
Como teclas de piano.
Uma trilha sonora para minhas chegadas e partidas.

E sim, eu teria um quarto escuro.

Um que eu não escolhi.
Um que aparece às vezes quando menos espero.
Ele não teria chave –
e eu poderia esquecer como sair.

Mas eu aprenderia a usar o silêncio dele.

E se eu não conseguisse sair sozinha –
alguém viria me buscar.

Porque nem todo quarto foi feito para ser enfrentado sozinho.
E isso não é fraqueza.

Isso é ajuda.
E é bem-vinda.

Então, sim.
Se eu fosse uma casa,
eu sussurraria.
Eu acolheria você.

E quando fosse preciso –
abriria todas as janelas.

Para que você pudesse ouvir a sua própria voz também.

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