Por Que Eu Escrevo Para Crianças

Quando escrevo para crianças, não estou tentando ensinar.
Estou tentando escutar.

Escrevo em conversa com a minha criança interna — e com muitas crianças imaginárias que vivem em algum lugar entre a curiosidade e a coragem. Crianças que fazem perguntas sem vergonha. Crianças que sentem profundamente sem pedir permissão. Crianças que sabem, instintivamente, que nem tudo precisa de resposta para valer a pena.

Eu não quero livros que expliquem o mundo às crianças.
Quero livros que as lembrem de que elas podem explorá-lo.

Acredito que a infância não é algo a ser corrigido ou apressado.
É algo a ser protegido.
E, ao mesmo tempo, algo que os adultos precisam reaprender.

As crianças são abertas.
São lúdicas.
Estão pensando o tempo todo — mesmo quando subestimamos o quanto.

Por isso, nunca escrevo “para baixo”.
Confio na inteligência delas, na sensibilidade, na capacidade de se encantar.
Subestimar uma criança é encolher o mundo que oferecemos a ela.

A Menina Que Escutava as Casas

Esse livro mora muito perto do meu coração.

Acredito que A Menina pode ser o início da vida terapêutica de uma criança — não por meio de respostas, mas pela filosofia. Pelas perguntas. Pelo reconhecimento.

Quando uma criança lê sobre sentimentos que reconhece, mas ainda não sabe nomear, algo se abre.
Ela percebe que não é estranha.
Que confusão também faz parte de estar viva.
Que pedir ajuda é, sim, uma forma de força.

A Menina não resolve emoções.
Ela permanece com elas.

E talvez seja por isso que tantos adultos se reconheçam nela também.

Adultos se abandonam com facilidade.
Perdem a conexão com o próprio mundo interno, com a curiosidade, com a linguagem emocional.

Nesse livro, tento cutucar essa criança interna — não para acordá-la bruscamente, mas para lembrar que ela ainda está ali.

Querido Dicionário, Precisamos Conversar

A linguagem sempre foi meu parquinho.

Querido Dicionário nasceu da minha paixão pelas palavras — e pelo fato de que elas nem sempre se comportam. De que o significado não é fixo. De que compreender é, muitas vezes, negociar.

Esse livro não é sobre saber a palavra certa.
É sobre escutar as palavras.
Brincar com elas.
Sentir como elas pousam.

Ele convida a criança a confiar na própria relação com a linguagem — e não apenas obedecê-la.

Onomat… O Quê? e a Liberdade do Som

Às vezes, as palavras falham.
E quando falham, o som salva.

Sempre fui apaixonada por onomatopeias. Substituo palavras por sons. Falo com gestos. Digo tchuf tchuf e deixo as mãos completarem a frase.

Onomat… O Quê? existe para mostrar que, quando a palavra falta, não precisamos nos calar.
Podemos brincar.

A Peia, a centopeia, ensina que o som também é linguagem. Que comunicar não exige domínio — apenas curiosidade e coragem.

A Menina Tagarela

A Tagarela sou eu.

Ela é um abraço em toda criança que fala demais, pensa rápido demais, sente intensamente demais.
É uma carta de amor à energia criativa que não sabe ficar quieta.

Mas ela também sabe algo importante:
existe silêncio entre as palavras.
E há espaço para tudo.

Não é excesso versus ausência — é ritmo.

O Que Eu Espero Que Fique

Quando uma criança fecha um dos meus livros, não espero que ela tenha aprendido algo.

Espero que ela tenha se sentido amada.
Acolhida.
Curiosa.

Espero que queira abrir outro livro.
E mais outro.
E mais um.

Espero que se sinta inspirada — em todos os sentidos possíveis.

Porque escrever para crianças, para mim, é oferecer liberdade.
Pelo som.
Pela palavra.
Pelo sentimento.

E confiar que as crianças — e os adultos que elas serão — já sabem muito bem o que fazer com isso.

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Parentheses: The Words That Don’t Want to Walk Alone