O Silêncio Antes das Palavras
Antes das palavras, existe o silêncio.
Não o silêncio do vazio, mas o silêncio da gestação.
É ali que as ideias ficam paradas, respirando devagar, sem nome, sem forma, sem urgência.
Um lugar onde nada acontece — e, ainda assim, tudo está começando.
Aprendi, com o tempo, que escrever não é forçar a chegada das palavras.
É saber esperar por elas.
É aceitar que, por dias ou semanas, o texto não virá.
E que isso não é ausência de escrita — é parte dela.
Há um tipo de silêncio que parece improdutivo.
Mas não é.
Ele observa.
Ele organiza.
Ele testa possibilidades sem nos avisar.
É nesse intervalo que a vida passa:
no meio das tarefas domésticas,
no caminho até o mercado,
numa frase ouvida sem intenção,
numa lembrança que retorna sem convite.
As palavras não surgem quando chamamos.
Elas surgem quando estamos prontas para ouvi-las.
Durante muito tempo, confundi silêncio com bloqueio.
Com falha.
Com incapacidade.
Hoje, entendo que o silêncio é um território sensível — e que nem todo campo fértil parece bonito antes da colheita.
Existe uma pressa invisível no mundo criativo.
Uma expectativa de produção constante,
de ideias claras,
de textos prontos.
Mas a minha escrita não funciona assim.
Ela precisa de pausas.
De camadas.
De tempo para decantar.
Antes de cada texto que escrevo,
há um período em que pareço distante até de mim mesma.
Não é afastamento — é escuta.
O silêncio me ensina a diferença entre escrever por ruído e escrever por verdade.
Porque é o silêncio que permite a inspiração.
A mente pensante, quando acelerada demais, cria ruídos.
E ruído não escuta — apenas reage.
É no silêncio que a ideia encontra espaço para existir
sem precisar se justificar.
E quando as palavras finalmente chegam,
elas não chegam gritando.
Chegam mansas.
Com cuidado.
Como quem pede licença para ficar.
Talvez por isso eu escreva do jeito que escrevo.
Com espaços.
Com respiros.
Com o entendimento de que nem tudo precisa ser dito de imediato.
Algumas coisas precisam primeiro ser sentidas.
Outras, apenas sustentadas em silêncio.
Escrever, para mim, começa exatamente aí:
no lugar onde ainda não há frases,
mas já existe sentido.