A Tristeza Nada Glamourosa de Ser Trilíngue
(Ou: como viver com três teclados emocionais dentro da mesma cabeça)
Todo mundo romantiza ser trilíngue.
“Que chique!”
“Que inteligente!”
“Que privilégio!”
Sim, claro.
Maravilhoso – até você tentar pedir um café e descobrir que esqueceu a palavra em TODAS as línguas disponíveis no sistema operacional do cérebro.
Ser trilíngue não é glamour.
É sobrevivência linguística.
Aqui estão algumas verdades pouco comentadas (e altamente caóticas) sobre viver com múltiplos idiomas:
1. Cada emoção tem uma língua própria
Tristeza? Português.
Ansiedade? Inglês.
Revolta social? Português paulista.
Lógica? Inglês.
Ternura profunda? Português de alma.
Impaciência? Dinamarquês (óbvio, for helvede).
Meu cérebro é basicamente um condomínio multilingue mal administrado.
2. Pensar em uma língua, falar em outra, e sentir em uma terceira
Exemplo verídico:
Eu (pensando em português): “Preciso avisar isso.”
Eu (falando em inglês): “Just letting you know that–”
Eu (sentindo em dinamarquês): det giver ikke mening…
Resultado:
Uma frase híbrida que não deveria existir na natureza.
3. Ser engraçada em mais de um idioma: missão impossível
Em português, eu sou espirituosa.
Em inglês, eu sou profunda.
Em dinamarquês, pareço alguém resolvendo imposto de renda.
Meu timing cômico só funciona em PT-BR.
E olhe lá.
4. Escrever livros em duas línguas exige terapia
Algumas ideias chegam em português, outras em inglês.
Traduzir?
Não dá.
A frase perde alma, ritmo, brilho – ou a vontade de existir.
Moral da história:
As ideias mandam, eu obedeço.
5. Ser trilíngue te oferece TRÊS chances de passar vergonha
Ser monolíngue?
Vergonha em um idioma.
Ser trilíngue?
Vergonha em três – às vezes na mesma frase.
As situações clássicas incluem:
– Trocar de idioma no meio da frase
“Eu tava thinking que… det giver ikke mening.”
– Inventar palavras que não existem em nenhuma língua
“Isso aqui tá bem… organizedo?”
– Fazer “code-switching” emocional sem autorização
PT pra sentir • EN pra explicar • DA pra perder a paciência
E então vem a parte mais divertida:
as confusões multilíngues eternas, que visitam nosso cérebro como parentes que não sabem a hora de ir embora:
📚 Biblioteca – Library – Bibliotek
PT: biblioteca
EN: library
DA: bibliotek
O cérebro trilíngue processa assim:
biblioteca → bibliotek (oba!) → library (EITA.)
Resultado:
Você entra numa library pra comprar livro
e numa livraria pra estudar.
🚪 Push / Pull: o terror universal
Push = empurrar
Pull = puxar
Todos sabemos disso.
O cérebro?
Não.
Ele te faz puxar a porta Push com convicção
e te deixa preso num café como um NPC travado.
🍞 Pão – Bread – Brød
PT: pão
EN: bread
DA: brød (que, cansada, você lê como “brother”)
Cenário real:
“Pode me dar um… brão?
Um prød?
Um brodão?”
O atendente acha que você inventou um carboidrato nórdico experimental.
🐾 Dyr – Animal – Caro (sim, os dois)
DA: dyr = animal
DA: dyr = caro
Você diz:
“Jeg elsker dyr.”
E alguém entende:
“Eu amo coisas caras.”
(Às vezes não está errado.)
💼 Firma – Firm – Firma
PT: firma = empresa
EN: firm = empresa + firme, sólido, rígido
DA: firma = empresa registrada
Parece fácil.
Na prática, é uma cebola multilíngue: várias camadas, todas irritantes.
🎁 Presente – Present – Præsente – Gave
PT: presente = gift / estar presente
EN: present = gift / estar presente
DA: præsente = estar presente
DA: gave = presente
DA: gift = veneno 😭
Sim.
Em dinamarquês, “gift” significa veneno.
E também casado.
Freud está rindo.
🍝 Pasta – Pasta – Pasta (?)
PT: pasta = arquivo
EN: pasta = macarrão
DA: pasta = … depende. Sempre depende.
Você diz:
“I need my pasta.”
E a pessoa responde com uma cara de:
“sua massa está onde…?”
E claro: misturar os três idiomas e achar que está arrasando
Você fala:
“Eu tava going to hente as minhas ting…”
e termina orgulhosa.
Até lembrar que, cinco minutos antes, você criticou o sotaque de alguém.
6. O vocabulário avança; a inteligência vai ficando para trás
Quando você fala três línguas, você perde temporariamente as três… em momentos aleatórios:
– supermercado
– chamadas de vídeo
– reuniões importantes
– na imigração do aeroporto (porque o universo tem senso de humor)
7. O cérebro trilíngue é um comediante involuntário
Ele troca palavras, sons, memórias, sotaques.
Ele te sabota quando você quer parecer culta.
Ele te salva quando você quer fugir de alguém.
Ele cria frases que fazem zero sentido – e age como se fosse perfeitamente normal.
Conclusão trilíngue:
Ser trilíngue não é sofrer.
Mas também não é glamouroso.
É viver em três mundos ao mesmo tempo.
É ter três versões de você mesma.
É perder palavras, achar outras, inventar mais algumas.
E, apesar de todos os bugs, travamentos e reinicializações emocionais…
Eu amo.
E amo nos três idiomas.
Porque cada língua me dá uma forma diferente de existir –
e uma forma diferente de contar histórias.